«Não há atrasos com os salários»



"ENTREVISTA EXCLUSIVA RECORD/ANTENA 1 (PARTE 3)RECORD - No passado foram assumidos problemas com o pagamento de salários. Como têm decorrido as coisas esta época?JOÃO CARLOS PEREIRA - Felizmente as coisas estão a correr muito bem, até porque as pessoas que estão à frente do clube têm como princípio cumprir as obrigações. Nesse sentido estamos todos juntos nesta caminhada e, até à data, estamos satisfeitos. Não há atrasos com os salários. Mais: os jogadores receberam o primeiro vencimento antes da hora.- " João Carlos Pereira: «Num dia bom podemos causar sensação em Alvalade»Em vésperas de defrontar o Sporting, o treinador do Belenenses desvaloriza o mau momento do adversário e recorda a ingenuidade da sua equipa com o Benfica. Diz que o empate seria um bom resultado mas acrescenta que não sabe preparar equipas só para não perderRECORD - O mau momento do Sporting, acrescentado pelos castigos de Paulo Bento, Miguel Veloso e Polga, constituirá uma vantagem para o Belenenses?JOÃO CARLOS PEREIRA - Penso que não. Uma equipa vale pelo seu todo e os planteis são concebidos para dar resposta às contingências de toda a época. Quem jogar tem certamente qualidade e domina as tarefas, bem como os princípios do posicionamento tático...R - Mas o peso relativo de Miguel Veloso na equipa tem sido enorme. Será mesmo o jogador do Sporting em melhor forma...JCP - Pode ser uma vantagem para nós. Mas o seu afastamento vai dar oportunidade a outro jogador que virá com mais ambição ainda. É evidente que as rotinas coletivas intra e inter sectores podem ressentir-se um pouco, mas com jogadores de tão elevada qualidade é fácil ultrapassar essas aparentes desvantagens.R - Este é um bom momento para defrontar o Sporting?JCP - Todos os momentos são bons para jogar com bons adversários, que nos coloquem à prova e nos desafiem. É assim que encaramos este jogo.R - Ao contrário de si, que já ganhou pelo Nacional, o Belenenses nunca venceu em Alvalade para o campeonato...JCP - É mais um ingrediente. Da última vez que lá fui venci mas agora o contexto é outro, o momento e os interpretes também. De qualquer forma, acredito que num dia bom podemos causar sensação em Alvalade.R - O empate não seria já um bom resultado?JCP - Um empate é sempre bom resultado frente a adversários como o Sporting, principalmente atendendo ao facto de o jogo ser fora de casa. Mas nós preparamo-nos para ganhar. Aliás eu, como treinador, não me vejo a trabalhar a minha equipa só para não perder. O nosso projeto coletivo de jogo tem linhas orientadoras muito claras quanto a isso. Queremos ser uma equipa comprometida com a qualidade do futebol, razão pela qual apostamos num jogo positivo. Representamos um dos grandes clubes do nosso futebol, que tem um nível de exigência elevado, e sabemos que para vestir esta camisola é preciso determinado perfil. Os nossos adeptos, bem como a administração, primam por uma exigência que já nos contagiou.R - Mesmo tendo isso em conta, o Belenenses apresentar-se-á com mais cuidados defensivos do que é habitual?JCP - Acima de tudo teremos cuidados com o equilíbrio. Quanto estivermos a atacar queremos a equipa bem posicionada, porque podemos perder a bola a qualquer momento e não queremos ser surpreendidos. Do mesmo modo, quando não tivermos a bola teremos de estar preparados para sair a jogar, ações que já executamos com alguma facilidade e nas quais, reconhecemos, o nosso adversário não é tão forte.R - O jogo com o Benfica é o ponto de comparação do Belenenses para defrontar o Sporting. Considera que a sua equipa foi ingénua nesse embate?JCP - Não deixo de concordar com a ideia mas há outras factores a ter em conta. Somos uma equipa em formação e, além disso, temos jogadores em processo de formação. Frente ao Benfica apresentámos uma equipa com alguns ex-juniores mais um que ainda é júnior, facto que confirma a nossa juventude. Quando se começa a preparar uma equipa, e nós temos consciência do caminho que estamos a percorrer e de onde pretendemos chegar, há sempre avanços e recuos. E aquele nível de exigência, com estádio cheio, frente a um grande clube, precipitou alguma debilidade da nossa parte.R - Os seus jogadores tremeram um pouco, foi isso?JCP - É um processo natural para quem está a dar os primeiros passos e que, de repente, se vê obrigado a correr. Mas frente ao Benfica ainda houve outra situação: por culpa própria, sofremos um golo cedo que nos obrigou a abandonar uma postura mais conservadora. E isso expôs-nos ao ponto mais forte do adversário: as suas transições ofensivas. Apesar de tudo, mantivemos a equipa sólida e penso que fomos prejudicados num ou noutro lance. No fim, por sermos uma equipa ambiciosa, que luta sempre pelo melhor resultado, expusemo-nos, tivemos de arriscar e, naturalmente, o Benfica aproveitou. Desse jogo tirámos a ilação de que ainda não estávamos suficientemente fortes para defrontar uma equipa com aquela dinâmica e aquele potencial. Problemas que, como se tem visto, têm afetado outras equipas da Liga.R - Foi uma lição importante para o jogo com o Sporting?JCP - Foi mais uma vivência. Nós temos de pensar que a experiência não é o que nos acontece mas o que fazemos com que nos aconteça. Somos uma equipa jovem, estes jogadores estão a crescer e não tenho dúvidas de que a médio/longo prazo teremos uma equipa com outro tipo de estrutura para fazer frente a estas exigências.R - Acha que o Sporting está um passo atrás dos outros candidatos ao título?JCP - Diria que é um Sporting mais intranquilo. Continua a ser uma equipa forte o que nem é surpreendente porque, bem vistas as coisas, não mudou muito em relação a épocas anteriores. Tem o mesmo treinador, um trabalho de continuidade bem assimilado e, mais do que uma equipa com menor rendimento, é uma equipa intranquila mas que, a espaços, já apresentou coisas muito boas.R - É uma equipa que tem revelado muitas debilidades em termos defensivos... Concorda com isso?JCP - Concordo, até porque não há equipas perfeitas. O próprio Benfica, muito forte em termos defensivos, num momento ou noutro passou por dificuldades no jogo connosco. Não há equipas perfeitas. Quanto ao Sporting, tentaremos explorar essas lacunas, porque isso faz parte da oposição estratégica do jogo. As forças e fraquezas de uns e outros são para ter em conta.R - No meio desta polémica à volta da arbitragem, o que espera do árbitro Carlos Xistra?JCP - Espero um trabalho que sirva os interesses do futebol.R - Reformulando a questão: acha que o árbitro vai a Alvalade tranquilo depois de semana tão conturbada?JCP - Ele vai ter de ir a Alvalade completamente tranquilo, porque essa é uma das exigências do perfil psicológico de um árbitro, que tem de ser isento, ajuizar corretamente e estar bem preparado a todos os níveis para resistir a tudo o que se passa à sua volta.R - O treinador do Belenenses não está, portanto, de pé atrás em relação a isso...JCP - Acredito que os árbitros vão fazer bom trabalho. Cometem erros como todos, eu já fui prejudicado esta época mas sei que um dia serei beneficiado... O futebol também é feito de erros de arbitragem. Nunca conseguiremos erradicá-los, porque o erro anda de mãos dadas com a competição.

" João Carlos Pereira: «Considero-me um treinador de projetos»RECORD - Quando chegou ao Belenenses não sabia em que escalão iria jogar. Não hesitou antes de aceitar o convite?JOÃO CARLOS PEREIRA - Não. É difícil recusar um clube com esta carga histórica e que nos coloca elevadas exigências, mais ainda quando está adjacente uma ideia aliciante que ia ao encontro das minhas ambições. Não olhei para trás, até porque começar no ano zero ou no menos um o importante era dar início ao projeto. Que, de resto, me pareceu ideal para a evolução da minha própria carreira.R - Afirmou no dia da apresentação que era um grande salto na sua carreira. Por que disse isso?JCP - Porque tenho consciência da dimensão do clube. Sem menosprezar todos os outros por que passei, este é diferente. Está mais perto do poder central, é da capital do país e proporciona maior notoriedade ao nosso trabalho na comunicação social, por exemplo. Sentimo-lo todos os dias. Para o bem e para o mal, é certo, mas essa é uma realidade que temos de encarar de forma positiva e otimista. A Académica também é um clube especial, porque está enquadrado numa zona geográfica e social específica, com massa associativa muito jovem. Mas o Belenenses tem outro peso: foi campeão nacional, tem uma dimensão que ultrapassa as fronteiras, mais que não seja por transportar a cruz de Cristo, e tem massa crítica muitíssimo apurada. É um grande desafio.R - A aposta na formação é circunstancial ou obedece à visão de que o futuro passa pelo aproveitamento da juventude?JCP - Eu considero-me um treinador de projetos e fiquei extremamente regozijado com o convite da SAD, com a qual tenho sentido enorme empatia. Por convicção, estamos alinhados nesta ideia. Reconheço que a via mais fácil para chegar depressa aos resultados é ter recursos para ir ao mercado e adquirir os melhores jogadores. Porém, acredito no meu trabalho e nos meus colaboradores. No Belenenses existe uma estrutura consciente e muito motivada em levar por diante este trabalho - e não falo só da equipa técnica. Acreditamos no que estamos a fazer, seguros de que vamos encontrar muitos obstáculos pelo caminho. Mas temos a certeza, jogadores incluídos, de que este rumo nos vai trazer coisas muito boas. Estamos a dar os primeiros passos num novo ciclo, reconhecendo que o contexto económico-financeiro do clube precipitou este tipo de aposta.R - É uma aposta para continuar?JCP - Das conversas que temos tido creio que é para continuar. Ainda há pouco tempo o nosso presidente manifestou o desejo da construção de um centro de treinos. De facto faltam-nos infra-estruturas para desenvolver um trabalho de qualidade, capaz de nos ajudar na concretização de um programa que visa a produção de jovens futebolistas com potencial para as exigências do futebol de hoje. É um grande desafio mas estamos motivados para assumi-lo sem hesitações e ganhá-lo. Todos estamos conscientes de que é preciso arregaçar as mangas e ir à luta. Creio que os próprios adeptos já entenderam que este trabalho vai demorar algum tempo embora isso não nos retire ambição no imediato - continuamos a querer ganhar, porque só assim faz sentido um clube de futebol. De resto, as vitórias fazem saltar etapas na formação de um jogador e de uma equipa.R - Dúvida nenhuma de que esse é um projeto coletivo para o futuro do Belenenses...JCP - Dúvida nenhuma. Mas é um projeto que, neste momento, precisa de intervenções dos diversos quadrantes da ação do clube. Temos muito claro o que queremos mas há dificuldades que não são ultrapassáveis para já. Para termos sucesso há quatro ou cinco factores fundamentais: tomar consciência política e social do que é preciso fazer; existirem condições, infra-estruturas e recursos para pôr o projeto em prática; apetrechar o clube com recursos humanos adequados, pessoas com know-how nas mais variadas áreas (do ponto de vista de liderança técnica nós temo-lo); o apoio das pessoas que giram à volta do clube, dos adeptos acima de todos e, por fim, um pouco de paciência para esperar que os resultados apareçam. O tempo corre a favor do Belenenses e nós temos todo o potencial dentro do clube para desenvolver este percurso.R - Depois de formar um plantel quase todo novo, foi difícil convencer os jogadores a vir para o Belenenses?JCP - Eu acredito na mobilização das pessoas. Houve jogadores dispensados que aceitaram baixar os ordenados para darem continuidade ao trabalho no clube, prova de que confiavam neles próprios, na nova orientação técnica e no futuro de uma forma geral. Os que entraram foram confrontados com as nossas ideias e eu próprio tive conversas individuais para que soubessem qual era o nosso projeto, o que esperávamos deles e o que podiam eles esperar de nós. A situação é muito clara e a sintonia é total. Voltando à questão, no início não foi tão fácil assim, até porque os nossos recursos financeiros não eram o que foram num passado recente. Não quero entrar muito por aí, mas a época passada foram gastos à volta de 10 milhões de euros.R - Esta época vai gastar quanto?JCP - Não poderei dizer concretamente quanto mas sei que é o orçamento mais baixo dos últimos dez anos no clube.R - À volta de 3 milhões de euros?JCP - Provavelmente. E não nos esqueçamos de que a esta administração vai ter de fazer face a compromissos herdados do passado e que fazem parte deste orçamento. Portanto, todos nós reconhecemos as limitações, que estamos quase a trabalhar sem rede mas, mesmo assim, entendemos que esta oportunidade era para ser agarrada.- " João Carlos Pereira: «Estávamos preparados para perder Júlio César»RECORD - Como reagiu à perda do Júlio César para o Benfica, a poucos dias do arranque oficial da época?JOÃO CARLOS PEREIRA - Faz parte do nosso trabalho antecipar cenários e já tínhamos essa hipótese preparada, como teremos outras. Infelizmente encontrámos um clube que do ponto de vista da estrutura de apoio à equipa de futebol não era de elevado rendimento. Não temos um gabinete de prospeção organizado mas sabíamos (e sabemos, claro) o que tem de ser feito. Quando chegámos, fomos logo confrontados com a possibilidade de o Júlio César sair. Por um lado ficámos felizes com a promoção que o clube lhe proporcionou e pelo retorno financeiro que a operação permitiu. Agora, estamos muito satisfeitos com o Nélson, que tem feito o que já esperávamos.R - Júlio César tem condições para ser titular do Benfica a curto ou médio prazo?JCP - Antes de surgir a possibilidade da transferência para a Luz, cheguei a dizer-lhe que o salto na carreira seria uma questão de tempo. É um guarda-redes com muito potencial e estava a fazer um excelente trabalho. Quanto à questão, sei que o Jorge Jesus tem um conhecimento muito profundo do futebol e mais ainda dos jogadores com quem trabalha ou trabalhou. Também nessa perspetiva, acredito que o Júlio César tem condições para discutir um lugar na baliza do Benfica. A única questão que posso colocar é o peso excessivo da camisola e a pressão inerente a um grande clube. Mas creio que ele vai superar tudo isso, até porque tem um histórico no Brasil suficientemente forte nesse capítulo.- " João Carlos Pereira: «Fellipe Bastos e Adu têm potencial tremendo»RECORD - O que espera de jogadores emprestados como Fellipe Bastos e Freddy Adu?JOÃO CARLOS PEREIRA - São dois futebolistas com potencial individual tremendo. O Adu cresceu num ambiente de estrelato mas a verdade é que só agora está a dar os primeiros passos no profissionalismo. Porque nos Estados Unidos as exigências não são as mesmas, precisa ainda de encontrar um ponto de equilíbrio. Insisto que ele e o Fellipe Bastos são jogadores com qualidade individual de excelência mas têm ainda de perceber melhor a lógica do jogo. Têm uma base indiscutível para serem grandes futebolistas mas precisam de aperfeiçoar alguns aspetos. Acredito que, com tempo e a nossa ajuda, poderão evoluir como esperamos.- " João Carlos Pereira: «Estoril foi boa experiência»RECORD - Só dois anos depois de regressar do Kuwait voltou a treinar em Portugal. Foi por falta de oportunidades?JOÃO CARLOS PEREIRA - Foi por falta da oportunidade que eu queria. Oportunidades houve e até estive próximo de voltar... Mas nem sempre encontramos o contexto adequado para que as coisas funcionem.R - Regressou ao serviço de um Estoril cheio de problemas. Não se arrependeu de o ter feito?JCP - Eu estive dois anos fora mas, ao mesmo tempo, dentro do futebol. Fui pela Europa fora ver como se trabalhava nos clubes de topo e pude contactar de perto com alguns treinadores da primeira linha. Tentei encontrar uma matriz própria de cada futebol e refleti muito sobre o jogo. Quando regressei optei pelo Estoril por considerar uma oportunidade interessante. A equipa vinha de uma boa época mas tinha começado muito mal, embora reconhecesse que havia muito potencial. Quando entrei, o João Lagos, como pessoa de bem, pôs-me a par do contexto financeiro do clube. E eu tinha duas opções: ficava de fora mais algum tempo ou abraçava o projeto. Decidi que podia inverter a tendência negativa no clube e aceitei. Valeu a pena. É nas dificuldades que vemos a grandeza das pessoas. E mesmo considerando que é uma situação a não repetir, que não recomendo a ninguém, foi uma experiência enriquecedora.

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